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Silvinha Poeta

O corpo fala

Textos


            O dia não havia terminado. No outono interiorano o céu parece emoldurar um quadro renascentista. As nuances de cores compõem um visual lindo de se ver. Tons de amarelo ao alto, nebulosidades que se assemelham a anjos e bichos, brincadeiras que nos remetem à infância. Na serra da cidade pacata, os olhos encontram o bucólico, a paz. Era tudo o que precisava naquele momento.
           Depois de um dia estafante e dos últimos mais para filme de terror, acostumada a trabalhar demais, estava em seu limite. Soube mais tarde que o terror ainda estaria por vir. Precisava de um tempo para esquecer os problemas. Pegou o carro sem destino e parou quando viu aquele lindo lugar, propício para aproveitar a paisagem. Impossível mensurar o tempo que se passou, olhar distante, sem pensamentos. A brisa que sentiu vinda do norte denunciava que logo viria chuva. Chuva forte. O clima nessa época do ano é seco e a longa estiagem dos últimos dias cominada à mistura de ares quentes prenunciava mesmo chuva que viria.
        Sua mãe era uma assumidamente a mulher do tempo. Gostava de assistir aos jornais e não perdia a moça do tempo para saber se choveria, ou se teríamos frente fria e etc. Dissera ao telefone que choveria à tarde. Ela sempre acertava. Ficou assim, sentindo os prazeres que só a natureza pode proporcionar, lambendo as farpas que o vento trazia em sua boca sem se importar. Sorvendo tudo o que de bom aquele instante podia lhe dar.
           A magia do instante foi quebrada quando uma luz de farol de outro carro se aproximava. Demorou a perceber. Tanto que quando viu o carro já estacionara ao lado do seu. Eram cerca de dezessete horas e o sol já começava a baixar. Logo escureceria.
           Um homem de boa aparência, mais para moreno, negro, barba por fazer, camisa xadrez em azul, um jeans amarrotado e velho, botinas de marca, aparentando menos de 50 anos, não parecia demonstrar perigo iminente. Parou, desceu e abaixou um pouco para olhar nos olhos da mulher, perguntando: “Boa tarde! Por favor, estou perdido". Sigo para São Paulo, capital, mas acho que tomei o rumo errado. A Srta.pode me ajudar e dizer para onde vou e qual estrada pegar?”
         Por um momento ficou estática, sem saber o que dizer. Estava sozinha, num lugar deserto e com um estranho à sua frente. Demorou o que lhe pareceu um tempo enorme até acordar e responder ao estranho que estava em sentido errado. Deveria retornar pela mesma via, fazer o balão a cerca de 500 metros em sentido para a Rodovia Castelo Branco. Havia placas de sinalização. Esperou que o moço se afastasse e seguisse seu caminho. Em vez disso, continuou a olhar e perguntou o que uma moça fazia sozinha naquele lugar. Poderia ser perigoso.
         O homem sorriu, um sorriso enigmático, agradeceu. O carro, na realidade, uma caminhonete Chevrolet D-20, muito suja, como quem vinha de longe ou havia passado por vias barrentas, estava com o motor ligado.
          Respondeu rapidamente, já se levantando, que ia pra casa. O moço neste momento segurou seu braço e disse que precisava de mais um favor. O motor da caminhonete estava seco e como ele ainda demoraria a encontrar um posto certamente correria o risco de a mesma dar problemas. Ela ficava cada vez mais amedrontada. Disse que não tinha água, ao que ele respondeu prontamente: “Aquela da garrafa em sua mão serviria”. Ela, desconsertada e muito nervosa, entregou-lhe a água. Quando ia retirar a mão, percebeu finalmente que suas apreensões não eram em vão. O homem segurou suas mãos com força e disse que queria um beijo de despedida. Poderia ser no rosto. Ela pediu desculpas, mas não poderia, estava com pressa. Nesse instante ele a puxou à força e tentou um beijo. Assustada ela fugiu puxando o rosto, sentindo a barba grossa raspar em sua pele sensível. A dor que sentiu era mais do momento de perigo que se aproximava e a deixava cada vez mais trêmula e com medo. O homem disse que não precisava ter medo. Ele queria só um beijo. Não faria nenhum mal a ela, a não ser que ela merecesse. Agora os olhos do homem mostraram o que realmente era. Viu de perto todas as rugas provenientes talvez do sol que tomara. Seu olhar era de um homem mau, amedrontador e perigoso.
         Olhou para o alto, como se um Deus que ela bem conhecia e que a protegia pudesse fazer alguma coisa, um milagre para salvá-la daquele homem. Só então percebeu que já anoitecia. Estava escuro, apesar de não conseguir perceber se eram nuvens escuras de chuva ou se estava noite mesmo.
          Fingiu um beijo leve no rosto para tentar se livrar e ir para o carro, mas o homem não se convenceu. Queria um beijo de verdade. Ela encostou os lábios trêmulos nos daquele estranho e foi para o carro que estava mais perto do que a caminhonete. Foi quando o homem deu a volta e entrou no carro dizendo que queria mais. Não. Resolveu que iriam dar uma volta e conhecer aquele lugar melhor. Ele gostara do que vira. Ela ainda tentou intervir dizendo que já estava escuro e ele não poderia ver nada. De nada adiantou. Lembrou-se do celular. Talvez conseguisse fugir correndo e ligar pedindo ajuda. Procurou pelo aparelho. O homem deu uma sarcástica risada e tirou do bolso da calça o celular que ele retirara do console ao entrar no carro. Achou que seria o fim. Tentou abrir a porta do carro, mas o homem a segurou por cima do corpo. Ela sentiu sua respiração ofegante cheirando um perfume que não tinha certeza, mas já sentira em alguém. Foi quando se lembrou. Seria coincidência? O perfume barato fora jogado fora quando seu ex trouxera para casa e ela não gostou Foi sincera e ele jogou. Foi tudo loucura da sua cabeça. Pensamentos de épocas ruins que voltavam à tona nesse momento muito pior. Cheirava a almíscar, um cheiro forte misturado com o suor daquele homem que agora a causava mais repugnância ainda. Ela perguntou o porquê daquilo. Implorou para que ele a deixasse ir. Foi quando ele falou: estava ali porque a procurara por anos. Teria sido humilhado por ela no passado e pelos amigos na adolescência quando ela não retribuíra seu amor. Um amor platônico, lembrou-se.
             Sílvio era um mulato mais para gordinho e estudava no período noturno na escola em que ela também estudava no período vespertino. Sílvio se apaixonara por ela desde o dia que a vira na entrada da escola. Ela era jovem, delicada, cabelos negros e lisos. Ele, negro – mistura de raças na realidade, cabelo sarará, muito sol e a pele afro se misturavam - sempre sentira o peso do preconceito. Mas nunca se engraçara por nenhuma menina, nem branca, nem negra. Aquela menina de cabelos lisos e pretos, olhar de ingenuidade o enfeitiçara. E ele passou a cortejá-la em forma de bilhetes deixados na carteira que descobrira era a mesma dela. Coincidência do destino, ele acreditava.
            Escrevia sobre sua beleza, sobre o amor que sentia e que gostaria de um dia poder conversar.
            Ela, que era de verdade ingênua em seus 11 ou 12 anos, odiava aquela petulância. Como assim? Nunca dera “bola” a menino nenhum. E logo com ela? Sua respostas ao bilhetes de amor para o estranho eram no mínimo inusitadas. Sempre gostara das palavras e seu maior amigo era o dicionário, o “pai dos inteligentes”. Naquela época nem se pensava em Internet, Google ou aplicativos. Procurara, com a ajuda de uma amiga, nomes esdrúxulos, xingamentos e lascava o verbo no papel, deixando-o para o aluno apaixonado e indolente ler logo após seu turno de aula.
             Um dia o viu entrando na escola e outro aluno o apontou dizendo ser ele. Nossa! Que decepção! Era feio, não pela cor da pele, nunca foi preconceituosa, mas não haveria nenhuma chance com ela. Pegou no outro dia e aumentou o número de xingamentos.  Sabe que foi pura infantilidade e despreparo. Pronto. Resolvido. Ele nunca mais a importunou.
             E agora, passados cerca de 40 anos, Sílvio, era ele, o homem na sua frente querendo vingança. Mudara muito. Eram duas crianças quando trocavam bilhetes. Falou sobre os anos de inúmeros relacionamentos mal sucedidos, sua história de infortúnios e desavenças familiares, seus complexos e o ódio que tinha das mulheres que o humilharam e, como com ela, não obtivera reciprocidade.                         
             Pronto. Estava tudo elucidado. O motivo e a causa de tanto ódio e de tê-la abordado daquele jeito era ainda mais assustador. Tentou se desculpar, argumentar sobre sua ingenuidade na época e que tudo muda. Que ele poderia ainda encontrar alguém. Disse que nunca teve e nunca terá preconceito racial ou de qualquer outro tipo. Nada. Ele começou a perder a paciência. Sua pupila dilatou e seus olhos pareciam querer saltar-lhe das faces.
             Foi quando ela viu uma luz chegando perto e cada vez mais perto. Ele, de tão possesso em sua tentativa de sair dali com ela, tentara aproximação, no que ela o afastou com as mãos e saiu correndo em direção ao carro que se aproximava. Correndo tanto que seus pés se entrelaçaram e ela caiu a poucos metros dos pneus. O carro, não sabe se por sorte ou azar, era uma viatura de Polícia Florestal, acertou-a de chanfre nas costas. Ela só se lembra de ter voado acima do veículo e quando acordou estava num quarto de hospital, com dores agudas pelo corpo todo.
            Soube mais tarde que Sílvio foi preso pela Lei Maria da Penha, não sabe se seria condenado, mas aquela tarde tão linda inicialmente ficou registrada em sua mente como algo que jamais esquecerá. E mais uma vez, Deus não a deixou na mão.



P.S- Esta é uma história fictícia, mas que pode ocorrer todos os dias em mentes com transtornos e patologias causadas por rejeição. Claro, a vítima da doença passa a vilão quando fatos como o relatado acima acontecem. Por isso, se conhecer alguém com um quadro parecido, denuncie, ou relate a parentes ou pessoas próximas. Estará praticando um ato de ajuda e de cidadania.
Silvinhapoeta
Enviado por Silvinhapoeta em 03/07/2018
Alterado em 01/10/2018
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